Sello Oração E Caridade

Respeitável Loja de São João

Oração e Caridade nº 22

BLOG

Carta de Jean-Baptiste Willermoz sobre a Grande Profissão

jul 27, 2022Doutrina, História0 Comentários

CARTA DE JEAN-BAPTISTE WILLERMOZ SOBRE A GRANDE PROFISSÃO (1807)

Se trata de um texto de Jean-Baptiste Willermoz sobra a Grande Profissão, com assinatura 173, intitulado: Artigo secreto anexo a minha carta de 1º de setembro de 1807, publicado em castelhano no “Documentos Martinistas VI, Ed. Manakel, Madri, 2021.
O destinatário desta carta é Claude-François Achard, Eques a Galea Aurea (Elmo de Ouro), nascido em Marselha em 23 de maio de 1751.

 

“Vendo a solicitação dos Irmãos mais avançados nos graus desejando que eu viaje a Marselha, parece-me evidente que entre os motivos que alegam, para alguns, existe uma em particular (menos confessado por alto…) o qual provavelmente é o principal. Desde a revelação feita há alguns anos sobre a existência no Regime de uma classe secreta e última, revelação que tenho censurado por seus perigos, mas que foi necessário para reorientar aqueles que haviam se desviado, além de apoiar aqueles que cambaleiam e também despertar de seu adormecimento a multidão caída nesta mortal letargia; cada um dos aspirantes fez seus cálculos particulares e consequentemente com muitos erros; pois cada um deles se julgou apto para a ‘coisa’ e capaz de participar nela sem conhecer, nem as regras, nem os deveres e nem as condições. A maioria daqueles que se encontram fechados em suas casas devido a natureza de seus assuntos pessoais, e por temor ou impotência de custear os gastos da viajem, de uma estadia mais ou menos prolongada em Lyon, naturalmente devem desejar que levem até eles o que não podem ou não querem vir buscar aqui. Mas, ainda que estivessem em Marselha, muitos deles se desiludiriam [sic – estariam decepcionados?] porque há regras muito rígidas a respeitar deste assunto; seria necessário que minha estadia ali fosse bastante prolongada para que pudesse analisar uma a uma as disposições e a aptidão pessoal de cada um em particular, o qual seria extenso e difícil com pessoas que não conheço em absoluto. Mas provavelmente haveria, para alguns afortunados, muitos descontentes, que por sua vez, crendo-me parcial, me julgariam de maneira severa. Além disso, segundo os mesmos princípios da Ordem, a entrada nesta Classe não pode estar aberta a todos os Cavaleiros, porque os graus de inteligência e de aptidão para estas coisas não são os mesmos para todos, e que, em alguns aspectos, podem até parecer dignos dele. E para levá-los a dar outra direção as ideias insanas e muito pouco reflexivas de alguns, que vou aprofundar-me aqui neste assunto, mais do que tenho feito até agora e a apresentarei sob suas diferentes facetas.

A sétima e última Classe que completa o Regime Retificado, e que deve permanecer ignorada pelas seis precedentes, até que se chame individualmente cada um daqueles que são julgados aptos a ascender até ela, é uma Iniciação particular que consiste em diversas instruções escritas, em que se desenvolvem os princípios e as bases fundamentais da Ordem e onde se explicam os emblemas, símbolos e cerimônias da Maçonaria Simbólica, mas esta Iniciação, por mais luminosa que seja, segue sendo imperfeita, insuficiente, inclusive pode ocasionar erros devido as más interpretações as quais nos entregamos muitas vezes, se não for acompanhada por outras instruções explicativas, as quais, não estando escritas, dá-se apenas verbalmente para aqueles que, por longos trabalhos e meditações alcançaram o grau, e assim possa-se distribuí-las a cada um convenientemente, segundo suas necessidades, suas aptidões e na justa medida do que lhes é necessário. Foram transmitidas desde tempos imemoriais por uma tradição oral que atravessou os séculos e se mantém por bons testemunhos. Eis porque devemos deixar que ignorem esta Classe, e fechar a entrada para aqueles a quem não se vislumbra a aptidão necessária para bem aproveitá-la; e igualmente para aqueles que, sobrecarregados demais por seus assuntos pessoais ou por preocupações temporais, não possuem a liberdade de espírito que se exige, nem dispõem do tempo necessário para conhecê-la em sua plenitude: você deve saber que este tempo exigido pode não ser curto. Também deve saber que, entre aqueles que a receberam de forma suficiente para sua formação pessoal, há pouquíssimos que atingem a capacidade de poder ensiná-la aos demais devidamente, já que isto é o resultado de uma disposição e uma vocação particular; eis porque a guarda destas instruções raramente é confiado a lugares onde não se encontram homens bastante fortes para explicá-los e valorizá-los.

Além disso, esta iniciação não pode admitir igualmente todos os cavaleiros, ainda que todos tenham o mesmo direito e que as disposições pessoais de cada um sejam iguais. É inútil e dispensável para um grande número. Traz perigos para alguns. É útil para muitos, e para outros é necessário e indispensável. Retomo as quatro distinções que é importante que entendeis bem:

1º – É inútil para a multidão destes homens bons, simples, privilegiados, cuja ciência está em seu coração, que tem a sorte de crer religiosamente e sem exame, tudo o que é necessário que acreditem para sua tranquilidade e sua felicidade, presente e futura, e creem com essa fé implícita que chamam vulgarmente de a “fé do carvoeiro”; para estes, a profissão de fé dos cavaleiros é absolutamente suficiente. Não seria de nenhum proveito para eles que lhes apresentassem outros objetivos que iriam apenas cansar e exaltar sua imaginação e perturbar seu gozo atual, além do que, normalmente, a inteligência destes não é nem ativa, nem muito profunda;

2º – Pode trazer certo perigo para aqueles que, seja pelo efeito de sua educação religiosa ou por sua disposição natural, entregaram-se a tarefa de suprimir a sua própria razão para adotar cegamente todas as pretensões, opiniões e decisões, ultramontanos*, e consequentemente o espírito de intolerância que sempre os acompanhou, prejudicando a Religião que tanto sofreu e segue sofrendo por estes fatais empreendimentos sugeridos pelo espírito de orgulho, de ambição, de dominação e de o mais sórdido desejo. Para aqueles que querem exigir para suas decisões humanas, as mais interessadas, variadas e de simples disciplina momentânea, o mesmo grau de fé absoluta que é devido essencialmente aos dogmas fundamentais da religião, estabelecidos por Jesus Cristo e seus Apóstolos, constantemente professados, sustentados e confirmados pela Igreja universal em seus Consílios gerais. Para aqueles que, tomando literalmente e ao pé da letra todas as palavras e expressões empregadas no Gênesis e em outros livros santos, sem buscar penetrar até o espírito que está velado sob a letra, estão sempre dispostos a escandalizar-se com toda interpretação ou explicação que não corrobora perfeitamente com o sentido particular que lhe dão. Seria inútil expô-los a um trabalho tão ingrato que lhes seria penoso, muito mais quando estas ideias, que estão assentadas na inteligência humana, raramente saem de lá, e temo muito que haja mais de um nesta classe entre os Irmãos Cavaleiros;

3º – É muito útil para o maior número daqueles que creem, mas fracamente, nas verdades fundamentais da religião cristã, que sentem uma necessidade interior de crer mais firmemente, mas, por não conhecer a verdadeira natureza original do homem, seu destino primitivo no universo criado, o tipo de sua prevaricação, sua queda, sua degradação e os terríveis efeitos que produziram na natureza, não encontram neles nem fora deles sustentação sólida para fixar invariavelmente sua crença, desejam acreditar mais dos que realmente acreditam, e veem fluir suas vidas em aflições e angustias de uma penosa incerteza. Para estes, há de se concordar, é um grande auxílio, já que devolve a calma e a fé que desejam;

4º – Finalmente, a Iniciação não só é útil, mas muito necessária para esta classe de homens de boa fé, muito mais numerosos do que se pensa, que creem firmemente na existência de um Deus Criador de todas as coisas, bom, justo, que castiga e recompensa, mas que, por falta de conhecer suficientemente sobre os pontos da doutrina primitiva já citadas anteriormente ao longo do artigo, custa-lhes conceber a divindade de Jesus Cristo e ainda mais a necessidade de redenção através da encarnação de um Deus feito Homem. A estes homens meditativos para os quais as demonstrações teológicas mais usadas, apresentadas ordinariamente como provas fascinantes (mas frequentemente questionadas…), não são provas suficientes; para estes que toda banalidade que tende repercutir na carne é insuficiente para sua convicção. Sim, é a estes que é mais necessário, e a quem deve necessariamente ser especialmente destinada. Não posso duvidar deles, havendo testemunhado muitas vezes seus resultados afortunados, já que estes homens de boa fé, uma vez convencidos e recolhidos em si mesmos pela força das consequências imediatas dos pontos da doutrina que lhes foram apresentados, tem feito irromper sua mudança por lágrimas de amor e agradecimento para com Aquele que, por pura desgraça, desconheciam, e se converteram desde então em colunas inquebráveis da fé cristã.

É por isso que a Ordem exige para os altos graus uma crença absoluta na Unidade de Deus, na Imortalidade da Alma humana, e o exige menos absolutamente para a pessoa Divina de Jesus Cristo, e vemos inclusivamente na profissão de fé dos cavaleiros, como em outros atos relativos, que você se mostra mais complacente a este respeito, e quase se conforma com uma boa e firme vontade de crer nas verdades que lhe são necessárias. É porque sabe que tem meios particulares para atrair a esta crença e convencer sobre esta importante verdade aos homens de boa fé. E é por isso que exige também de todos os membros uma tolerância universal de que faz um princípio e um dever absoluto para todos – e nisto, imita o exemplo Daquele que disse: “não vim a este mundo para as pessoas que se portam bem, mas vim para aliviar e curar aqueles que estão doentes” – e como Jesus Cristo em meio a esta multidão de enfermos não rejeitou nem aos ignorantes nem aos sábios, nem aos fariseus, nem aos mercadores, mas sim os acolheu a todos, com a mesma bondade, por acaso há de assombrar-se de que a Ordem, à sua semelhança, acolha em seu seio com a mesma caridade todos os cristãos bem-dispostos, ainda que divirjam em opinião e formem seitas diferentes sobre pontos da doutrina mais ou menos importantes? Depois de conduzi-los pela instrução à crença religiosa fundamental e necessária, deixa-se à graça divina o cuidado de operar as mudanças interiores ou exteriores que julga necessárias segundo o Desejo de Sua Providência. A Ordem proíbe-se julgar e mais ainda condenar qualquer um daqueles que permanecem ligados aos verdadeiros princípios e deixam o juízo ao único que pode verdadeiramente julgar os pensamentos e as intenções dos homens.

Você vê nesta exposição, Querido Irmão, que a Iniciação é especialmente reservada para os Irmãos doentes, isto é, para aqueles que sentem vivamente os sofrimentos e a causa de sua doença e desejam sinceramente curar-se. É inútil para os demais e muitas vezes só seria um novo alimento para o orgulho, a vaidade e a curiosidade humana. Veja quanto esta escolha é delicada e quanto exige, para com aqueles que não conhecemos, o tempo e a precaução para fazê-lo bem.

É especialmente para você, Querido Irmão, que tracei a exposição anterior dos princípios gerais que devem servir de regra para a conduta a ser observada para com cada um.

No entanto, te rogo que comunique esta mensagem ao Irmão Vigier, para quem a impossibilidade de apresentar-se é o único obstáculo que conheço para seu avanço. Não me oponho também que comuniques fragmentos mais ou menos extensos desta mensagem a um pequeno número de cavaleiros aos quais julgue unanimemente útil para seu próprio bem e torná-los conhecidos para a ocasião, comunicando-me logo seus nomes”.

 

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.