Sello Oração E Caridade

Respeitável Loja de São João

Oração e Caridade nº 22

Somente a Ordem é o princípio do Regime Escocês Retificado

Somente a Ordem é o princípio do Regime Escocês Retificado

Diretório Nacional Retificado da França
Grande Diretório das Gálias

SOMENTE A ORDEM É O PRINCÍPIO DO REGIME ESCOCÊS RETIFICADO

Durante o Convento das Gálias foi decretada uma lei que se tornará no próprio princípio do Regime Escocês Retificado: é a “Ordem”, considerada como base e princípio, e não como estrutura obediencial, que legitima e fundamenta a regularidade das Lojas.

Conforme o Código Geral das Lojas Reunidas e Retificadas da França:

“As Lojas nada mais são do que sociedades particulares, subordinadas à sociedade geral, que lhes dá a existência e os poderes necessários para representá-la na parte da autoridade que lhes confia; que esta autoridade parcial emana daquilo que reside essencialmente no centro comum e geral da Ordem…” [1]

Portanto, requer-se que se possa erigir uma Ordem iniciática de essência cavaleiresca, mas de uma cavalaria completamente espiritual, destinada a travar uma batalha sutil que se encontra no invisível, capaz de lotar, não para restabelecer uma Ordem material desaparecida no curso da história no séc. XIV, como a Ordem do Templo, mas sim contra os resquícios da degradação original, participando de um combate capaz de reduzir e derrubar as forças que aprisionam aos seres nos obscuros calabouços do domínio das sombras desde a Queda.

René Guénon (+1951) sobre este ponto, recorda de forma pertinente o que concerne a maçonaria moderna quando se aplica a suas formas tradicionais o modelo das estruturas profanas:

“Esta ‘degeneração’, se em nada altera a natureza essencial da Maçonaria, torna perfeitamente explicável os numerosos desvios que ocorreram durante os últimos três séculos e cuja organização sob a forma ‘obediencial’, em estruturas que apresentam o evidente defeito de ‘ter se moldado segundo a forma dos governos profanos’, é um caráter muito sintomático desta modernidade.” [2]

É por isso que – para render homenagem a Marius Lepage (+1972), grande maçom que tomou a iniciativa de convidar o Reverendo Padre Michel Riquet para a Loja – pode-se adicionar estas linhas sem repudiar a Willermoz:

A Ordem é de essência indefinível e absoluta; a Obediência é submissa a todas as flutuações inerentes a fraqueza congênita do espírito humano. [3]

Fica claro, já que em nossos dias perdeu-se muito da compreensão do que é a “Ordem” segundo os critérios do Regime Retificado, e chegou o momento de voltar novamente aos princípios da Reforma de Lyon, tal como consta em uma das instruções citadas no Convento das Gálias:

Buscais retornar ao primeiro objetivo da Iniciação Maçônica e acabamos por vinculá-los a uma Ordem que corresponde aqueles que somente podem instruí-los. Se souberes algum dia fazer-se reconhecer como um verdadeiro Cavaleiro Maçom da Cidade Santa; se construíres constantemente em um Templo do Senhor; […] podereis conceber a esperança de alcançar o objetivo desejado. (Instrução do 5º Grau, 1778)

Fontes Bibliográficas:

[1] Código Maçônico das Lojas Reunidas & Retificadas da França, tal como foi aprovado pelos Deputados dos Diretórios no Convento Nacional de Lyon, 5778;
[2] R. Guénon, Considerações sobre a Iniciação, Cap. XIV, “Das qualificações iniciáticas”; e Cap. XXIX, “Operativo” e “Especulativo”;
[3] Marius Lepage, L’Ordre et les Obédiences, Histoire et Doctrine de la Franc-Maçonnerie, 1956, p. 8.

Como se governa o Regime Escocês Retificado?

Como se governa o Regime Escocês Retificado?

Extrato do Código Geral dos Regulamentos da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa (CBCS), decretado no Convento Nacional das Gálias realizado em novembro de 465/1778.

Título 4: Governo Geral da Ordem
Artigo I: Natureza do Governo

“O governo da Ordem é aristocrático, os chefes são Presidentes dos respectivos Capítulos. O Grão-Mestre Geral não pode empreender nada sem a opinião dos Provinciais, o Mestre Provincial sem a dos Priores e dos Prefeitos, os Prefeitos sem a dos Comendadores, e estes sem ter conferenciado com os Cavaleiros de seu distrito. Todos os Presidentes de Assembleias, Mestres Provinciais, Grandes Priores e Prefeitos tem sempre direito, depois da exposição do assunto por parte do Conselheiro, a primeira voz consultiva e a última deliberativa.

Em todas as Assembleias da Ordem prevalecerá sempre a pluralidade de sufrágio, e as decisões tomadas devem ser colocadas em prática de forma imediata, independente de qualquer recurso de apelação. Esta lei de pluralidade é sagrada e fundamental na Ordem, como em qualquer sociedade bem ordenada; esta lei é a defesa da liberdade e a garantia contra o despotismo. Um chefe ou Presidente de uma Assembleia, que queira abusar de seus poderes, até o ponto de transgredir esta lei fundamental, será considerado perjuro em suas obrigações; e incorre nas punições mais graves por parte de seus Superiores”.

Artículo III: Grão-Mestre Geral

“Não pode alterar nada na constituição da Ordem por sua própria autoridade, nem exercer nenhum poder arbitrário, nem exigir de nenhum dos Cavaleiros nada que seja contrário aos regulamentos e estatutos; todos os Cavaleiros lhe devem respeito e obediência sub estas reservas.”

Fica claro que a Ordem é governada pelos Cavaleiros, daí seu Regime Aristocrático. Portanto, a Autoridade sempre emana do Grande Capítulo Geral da Ordem, resguardando do despotismo e do poder arbitrário. O que for aprovado pelo Grande Capítulo para o bom governo da Ordem é executado imediatamente por quem a representa, que é o Grão-Mestre/Grão-Prior.

Aquele que, ostentando um determinado cargo e abusa de seu poder, contra o que está estabelecido pelos Códigos da Ordem e contra a vontade dos Cavaleiros que o elegeram para representá-los, este se converte em um perjuro. Mas se além disso, ainda justifica seu abuso em nome de Deus, então este perdeu o juízo.

Quando é instalado na Ordem Interior um Comendador ou um Prefeito, o último Cavaleiro Armado lhe devolve sua espada dizendo:

“Nós, que somos como vós, e todos juntos mais que vós, o aceitamos como Comendador/Prefeito. Se não cumprires com os compromissos que haveis prometido dar exemplo, nós o intimaremos.”

Uma belíssima frase que sintetiza o verdadeiro espírito cavaleiresco da Ordem dos Cavaleiros Benfeitores da Cidade Santa.

Non nobis Domine, non nobis, sed Nomine Tuo da Gloriam.

Substitução de Tubalcaim por Phaleg

SUBSTITUIÇÃO DE TUBALCAIM POR PHALEG

ATA DA REUNIÃO DO DIRETÓRIO PROVINCIAL DE AUVERNIA.

No dia de hoje, domingo, 05 de março de 1785, o Diretório Provincial de Auvernia com sede em Lyon, estando regularmente convocado e reunido, com a Regência Escocesa e o Diretório Escocês, o Respeitável Irmão Cavaleiro de Savaron, Presidente, tem observado que o comitê nomeado para a redação dos graus de acordo com as decisões do Convento, acreditaram ser oportuno mudar a palavra de passe de Aprendiz Tubalcain por Phaleg, que o Respeitável Irmão Willermoz, Conselheiro Geral, encarregado pessoalmente pelo Convento de Wilhemsbad da revisão dos graus, havia dado para esta troca motivos que incumbia dar conhecimento aos Diretórios presentes, convidando este Respeitável Irmão a explicar-se a respeito, e convocando aos Irmãos presentes, a examinar as razões que foram alegadas para deliberar a continuação.

O Respeitável Irmão Willermoz, correspondendo a requisitória do Presidente da Assembleia, disse: “que independentemente da multitude de razões que poderia alegar para a mudança da palavra Tubalcain, há entre elas uma, que parece estar feita para aqueles que pensam justamente que nada é indiferente na Maçonaria, e esta é que, Tubalcain, que foi filho de Lamech, o Bígamo e de Zilá, foi o primeiro que conheceu a arte de trabalhar com o martelo, e foi hábil em toda sorte de trabalhos em cobre e ferro, por isso é chamado o inventor, o pai da arte de trabalhar os metais, e esta é a explicação que se da”.

Porém não se deram em conta que é um contrassenso dar ao Aprendiz esta palavra de passe depois de haver-lhe feito deixar todos os metais que são o emblema dos vícios.

Com efeito, por um lado, se lhe ensina que não é sobre os metais que o verdadeiro Maçom deve trabalhar; e por outro, se lhe põe em situação de crer que Tubalcaim, Pai e inventor do trabalho sobre os metais, seria o primeiro fundador da Maçonaria elevada.

Se Tubalcaim foi o fundador de uma iniciação qualquer, podemos ver qual deveria ser o objeto e o objetivo desta iniciação pelo que dele dizem as Escrituras, e neste século no qual tantos Maçons se ocupam da alquimia, um Regime que conhece seus perigos não deve conservar um nome que se tem perpetuado pela ignorância ou pela falta de atenção daqueles que não se deram conta desta relação e esta inconsequência, e estão por isso ainda ligado àqueles outros que se ocupam em imitar a Tubalcaim que, foi o primeiro a tocar os metais.

Se desta observação passarmos ao exame do tempo em que viveu Tubalcaim, veremos que foi antes do dilúvio, flagelo com o qual Deus quis apagar da face da terra as obras dos homens.

Tudo o que remonta a essa época não deve parecer puro, e se deve temer alguns daqueles que atraíram a ira de Deus sobre os homens.

Se a iniciação de Tubalcaim se propagou, esta é impura, e pareceria importante romper toda relação com ela, uma vez que se retira dos maçons todos os metais, emblema por outro lado verdadeiro e preservado em todos os regimes, como que para separá-los daquele que os trabalhou primeiro.

É portanto depois do dilúvio, no tempo da confusão das línguas, quando encontraríamos a razão da fundação de uma iniciação secreta que tem-se perpetuado e que é o objeto da busca dos maçons.

Um estudo da verdade feita a partir das mais puras intenções nos têm conduzido a saber que é nos descendentes de Sem onde devemos buscar a fundação da verdadeira iniciação.

Sem foi abençoado por Noé, e nos levam a crer que Phaleg, filho de Heber e descendente de Sem, que foi o pai de todos os filhos de Heber, é o fundador de uma única e verdadeira iniciação, por este motivo parece determinante para substituir o nome de Tubalcaim pelo de Phaleg.

Cam amaldiçoado por Noé fará sua iniciação, tudo o testemunha, e que sua palavra de passe tem sido Tubalcain, que é o emblema dos vícios, e que convêm aos filhos de Canaã que a tem transmitido; mas devemos recordar que está dito: Maldito seja Canaã, seja diante de seus irmãos o escravo dos escravos.

Desejosos por descender de Sem, os verdadeiros maçons devem se apressar-se em separar-se para sempre dos filhos de Canaã, que devem ser aos olhos de seus irmãos os escravos dos escravos.

Estes motivos têm sido ainda mais detalhados no comitê, que finalmente tem reconhecido que é com razão que Phaleg é designado como fundador da Maçonaria e o primeiro a ter uma Loja.

Os Diretórios reunidos deliberaram sobre esta questão importante, decidiram unanimemente, definitivamente e para sempre:

ARTIGO I

Que o nome de Tubalcain seja suprimido e substituída pelo de Phaleg do qual se dará explicação verdadeira ao Aprendiz, que esta mudança terá tido lugar durante a primeira assembleia da Loja Beneficência e, logo que possível na do distrito.

ARTIGO II

Decidiu-se que a presente deliberação seja enviada para S.A.R. o Smo. e Emo. Grão-Mestre Geral da Ordem, o Irmão Príncipe Ferdinand Duque de Brunswick e S.A.R. o SMO. o Príncipe Charles de Hesse-Cassel, já que estamos convencidos de que estes dois ilustres Irmãos, reconhecerão a veracidade dos motivos que determinaram aos Irmãos deste distrito a alteração da palavra de passe, e se empenharam com toda a sua autoridade para fazer que seja adotado em todas as instituições do Regime.

ARTIGO III

Parecido envio será feito a Sua Grandeza, o Mestre Provincial do Território, o Smo. Irmão Duque de Havre e de Croy, que aprovou a deliberação dos Diretórios, havendo tido comunicação particular dos motivos que devem determinar a mudança; rogando-lhe garantia com toda sua autoridade sua execução.

ARTIGO IV

Finalmente, como esta troca tende a estabelecer uma diferença essencial na busca da verdade maçônica e que a palavra Tubalcaim tem sido conservada sem haver-lhe dado muita atenção neste Regime, porque aparentemente não havia nenhuma diferença, os outros Diretórios serão convidados a tomar em consideração os motivos anteriormente alegados, e a esses efeitos, lhes será dirigida copia formal pelo Conselheiro Geral do Território, que lhes fará conhecer a razão de uma mudança, que sem a exposição dos motivos, poderia parecer arbitrária e demasiada precipitada; o Diretório de Auvérnia buscando todos os meios de aproximação da verdade, e em manter os laços de fraternidade.

Assim feito e decretado no Diretório a fim de que seja para sempre estabelecido neste distrito, em Lyon, nos dias e ano anteriormente ditos.

Extrato retirado e organizado com o Protocolo por nós, Conselheiro Geral do Território. Em Lyon, em 18 de junho de 1785. Assina, Willermoz primogênito.

Expedição para ser depositada nos arquivos da Respeitável Loja da Triple Union, ao Oriente de Marselha, que eu certifico conforme e verdadeira.

Lyon a 27 de junho de 1785.

Carta de Jean-Baptiste Willermoz sobre a Grande Profissão

CARTA DE JEAN-BAPTISTE WILLERMOZ SOBRE A GRANDE PROFISSÃO (1807)

Se trata de um texto de Jean-Baptiste Willermoz sobra a Grande Profissão, com assinatura 173, intitulado: Artigo secreto anexo a minha carta de 1º de setembro de 1807, publicado em castelhano no “Documentos Martinistas VI, Ed. Manakel, Madri, 2021.
O destinatário desta carta é Claude-François Achard, Eques a Galea Aurea (Elmo de Ouro), nascido em Marselha em 23 de maio de 1751.

 

“Vendo a solicitação dos Irmãos mais avançados nos graus desejando que eu viaje a Marselha, parece-me evidente que entre os motivos que alegam, para alguns, existe uma em particular (menos confessado por alto…) o qual provavelmente é o principal. Desde a revelação feita há alguns anos sobre a existência no Regime de uma classe secreta e última, revelação que tenho censurado por seus perigos, mas que foi necessário para reorientar aqueles que haviam se desviado, além de apoiar aqueles que cambaleiam e também despertar de seu adormecimento a multidão caída nesta mortal letargia; cada um dos aspirantes fez seus cálculos particulares e consequentemente com muitos erros; pois cada um deles se julgou apto para a ‘coisa’ e capaz de participar nela sem conhecer, nem as regras, nem os deveres e nem as condições. A maioria daqueles que se encontram fechados em suas casas devido a natureza de seus assuntos pessoais, e por temor ou impotência de custear os gastos da viajem, de uma estadia mais ou menos prolongada em Lyon, naturalmente devem desejar que levem até eles o que não podem ou não querem vir buscar aqui. Mas, ainda que estivessem em Marselha, muitos deles se desiludiriam [sic – estariam decepcionados?] porque há regras muito rígidas a respeitar deste assunto; seria necessário que minha estadia ali fosse bastante prolongada para que pudesse analisar uma a uma as disposições e a aptidão pessoal de cada um em particular, o qual seria extenso e difícil com pessoas que não conheço em absoluto. Mas provavelmente haveria, para alguns afortunados, muitos descontentes, que por sua vez, crendo-me parcial, me julgariam de maneira severa. Além disso, segundo os mesmos princípios da Ordem, a entrada nesta Classe não pode estar aberta a todos os Cavaleiros, porque os graus de inteligência e de aptidão para estas coisas não são os mesmos para todos, e que, em alguns aspectos, podem até parecer dignos dele. E para levá-los a dar outra direção as ideias insanas e muito pouco reflexivas de alguns, que vou aprofundar-me aqui neste assunto, mais do que tenho feito até agora e a apresentarei sob suas diferentes facetas.

A sétima e última Classe que completa o Regime Retificado, e que deve permanecer ignorada pelas seis precedentes, até que se chame individualmente cada um daqueles que são julgados aptos a ascender até ela, é uma Iniciação particular que consiste em diversas instruções escritas, em que se desenvolvem os princípios e as bases fundamentais da Ordem e onde se explicam os emblemas, símbolos e cerimônias da Maçonaria Simbólica, mas esta Iniciação, por mais luminosa que seja, segue sendo imperfeita, insuficiente, inclusive pode ocasionar erros devido as más interpretações as quais nos entregamos muitas vezes, se não for acompanhada por outras instruções explicativas, as quais, não estando escritas, dá-se apenas verbalmente para aqueles que, por longos trabalhos e meditações alcançaram o grau, e assim possa-se distribuí-las a cada um convenientemente, segundo suas necessidades, suas aptidões e na justa medida do que lhes é necessário. Foram transmitidas desde tempos imemoriais por uma tradição oral que atravessou os séculos e se mantém por bons testemunhos. Eis porque devemos deixar que ignorem esta Classe, e fechar a entrada para aqueles a quem não se vislumbra a aptidão necessária para bem aproveitá-la; e igualmente para aqueles que, sobrecarregados demais por seus assuntos pessoais ou por preocupações temporais, não possuem a liberdade de espírito que se exige, nem dispõem do tempo necessário para conhecê-la em sua plenitude: você deve saber que este tempo exigido pode não ser curto. Também deve saber que, entre aqueles que a receberam de forma suficiente para sua formação pessoal, há pouquíssimos que atingem a capacidade de poder ensiná-la aos demais devidamente, já que isto é o resultado de uma disposição e uma vocação particular; eis porque a guarda destas instruções raramente é confiado a lugares onde não se encontram homens bastante fortes para explicá-los e valorizá-los.

Além disso, esta iniciação não pode admitir igualmente todos os cavaleiros, ainda que todos tenham o mesmo direito e que as disposições pessoais de cada um sejam iguais. É inútil e dispensável para um grande número. Traz perigos para alguns. É útil para muitos, e para outros é necessário e indispensável. Retomo as quatro distinções que é importante que entendeis bem:

1º – É inútil para a multidão destes homens bons, simples, privilegiados, cuja ciência está em seu coração, que tem a sorte de crer religiosamente e sem exame, tudo o que é necessário que acreditem para sua tranquilidade e sua felicidade, presente e futura, e creem com essa fé implícita que chamam vulgarmente de a “fé do carvoeiro”; para estes, a profissão de fé dos cavaleiros é absolutamente suficiente. Não seria de nenhum proveito para eles que lhes apresentassem outros objetivos que iriam apenas cansar e exaltar sua imaginação e perturbar seu gozo atual, além do que, normalmente, a inteligência destes não é nem ativa, nem muito profunda;

2º – Pode trazer certo perigo para aqueles que, seja pelo efeito de sua educação religiosa ou por sua disposição natural, entregaram-se a tarefa de suprimir a sua própria razão para adotar cegamente todas as pretensões, opiniões e decisões, ultramontanos*, e consequentemente o espírito de intolerância que sempre os acompanhou, prejudicando a Religião que tanto sofreu e segue sofrendo por estes fatais empreendimentos sugeridos pelo espírito de orgulho, de ambição, de dominação e de o mais sórdido desejo. Para aqueles que querem exigir para suas decisões humanas, as mais interessadas, variadas e de simples disciplina momentânea, o mesmo grau de fé absoluta que é devido essencialmente aos dogmas fundamentais da religião, estabelecidos por Jesus Cristo e seus Apóstolos, constantemente professados, sustentados e confirmados pela Igreja universal em seus Consílios gerais. Para aqueles que, tomando literalmente e ao pé da letra todas as palavras e expressões empregadas no Gênesis e em outros livros santos, sem buscar penetrar até o espírito que está velado sob a letra, estão sempre dispostos a escandalizar-se com toda interpretação ou explicação que não corrobora perfeitamente com o sentido particular que lhe dão. Seria inútil expô-los a um trabalho tão ingrato que lhes seria penoso, muito mais quando estas ideias, que estão assentadas na inteligência humana, raramente saem de lá, e temo muito que haja mais de um nesta classe entre os Irmãos Cavaleiros;

3º – É muito útil para o maior número daqueles que creem, mas fracamente, nas verdades fundamentais da religião cristã, que sentem uma necessidade interior de crer mais firmemente, mas, por não conhecer a verdadeira natureza original do homem, seu destino primitivo no universo criado, o tipo de sua prevaricação, sua queda, sua degradação e os terríveis efeitos que produziram na natureza, não encontram neles nem fora deles sustentação sólida para fixar invariavelmente sua crença, desejam acreditar mais dos que realmente acreditam, e veem fluir suas vidas em aflições e angustias de uma penosa incerteza. Para estes, há de se concordar, é um grande auxílio, já que devolve a calma e a fé que desejam;

4º – Finalmente, a Iniciação não só é útil, mas muito necessária para esta classe de homens de boa fé, muito mais numerosos do que se pensa, que creem firmemente na existência de um Deus Criador de todas as coisas, bom, justo, que castiga e recompensa, mas que, por falta de conhecer suficientemente sobre os pontos da doutrina primitiva já citadas anteriormente ao longo do artigo, custa-lhes conceber a divindade de Jesus Cristo e ainda mais a necessidade de redenção através da encarnação de um Deus feito Homem. A estes homens meditativos para os quais as demonstrações teológicas mais usadas, apresentadas ordinariamente como provas fascinantes (mas frequentemente questionadas…), não são provas suficientes; para estes que toda banalidade que tende repercutir na carne é insuficiente para sua convicção. Sim, é a estes que é mais necessário, e a quem deve necessariamente ser especialmente destinada. Não posso duvidar deles, havendo testemunhado muitas vezes seus resultados afortunados, já que estes homens de boa fé, uma vez convencidos e recolhidos em si mesmos pela força das consequências imediatas dos pontos da doutrina que lhes foram apresentados, tem feito irromper sua mudança por lágrimas de amor e agradecimento para com Aquele que, por pura desgraça, desconheciam, e se converteram desde então em colunas inquebráveis da fé cristã.

É por isso que a Ordem exige para os altos graus uma crença absoluta na Unidade de Deus, na Imortalidade da Alma humana, e o exige menos absolutamente para a pessoa Divina de Jesus Cristo, e vemos inclusivamente na profissão de fé dos cavaleiros, como em outros atos relativos, que você se mostra mais complacente a este respeito, e quase se conforma com uma boa e firme vontade de crer nas verdades que lhe são necessárias. É porque sabe que tem meios particulares para atrair a esta crença e convencer sobre esta importante verdade aos homens de boa fé. E é por isso que exige também de todos os membros uma tolerância universal de que faz um princípio e um dever absoluto para todos – e nisto, imita o exemplo Daquele que disse: “não vim a este mundo para as pessoas que se portam bem, mas vim para aliviar e curar aqueles que estão doentes” – e como Jesus Cristo em meio a esta multidão de enfermos não rejeitou nem aos ignorantes nem aos sábios, nem aos fariseus, nem aos mercadores, mas sim os acolheu a todos, com a mesma bondade, por acaso há de assombrar-se de que a Ordem, à sua semelhança, acolha em seu seio com a mesma caridade todos os cristãos bem-dispostos, ainda que divirjam em opinião e formem seitas diferentes sobre pontos da doutrina mais ou menos importantes? Depois de conduzi-los pela instrução à crença religiosa fundamental e necessária, deixa-se à graça divina o cuidado de operar as mudanças interiores ou exteriores que julga necessárias segundo o Desejo de Sua Providência. A Ordem proíbe-se julgar e mais ainda condenar qualquer um daqueles que permanecem ligados aos verdadeiros princípios e deixam o juízo ao único que pode verdadeiramente julgar os pensamentos e as intenções dos homens.

Você vê nesta exposição, Querido Irmão, que a Iniciação é especialmente reservada para os Irmãos doentes, isto é, para aqueles que sentem vivamente os sofrimentos e a causa de sua doença e desejam sinceramente curar-se. É inútil para os demais e muitas vezes só seria um novo alimento para o orgulho, a vaidade e a curiosidade humana. Veja quanto esta escolha é delicada e quanto exige, para com aqueles que não conhecemos, o tempo e a precaução para fazê-lo bem.

É especialmente para você, Querido Irmão, que tracei a exposição anterior dos princípios gerais que devem servir de regra para a conduta a ser observada para com cada um.

No entanto, te rogo que comunique esta mensagem ao Irmão Vigier, para quem a impossibilidade de apresentar-se é o único obstáculo que conheço para seu avanço. Não me oponho também que comuniques fragmentos mais ou menos extensos desta mensagem a um pequeno número de cavaleiros aos quais julgue unanimemente útil para seu próprio bem e torná-los conhecidos para a ocasião, comunicando-me logo seus nomes”.

 

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.

A MAÇONARIA E OS TEMPLÁRIOS. Por Joseph de Maistre

A MAÇONARIA E OS TEMPLÁRIOS
Por Joseph de Maistre

Memorando dirigido por Joseph de Maistre ao duque Ferdinand de Brunswick-Lunebourg, Grão-Mestre da Maçonaria Escocesa da Estrita Observância, por ocasião do Convento de Wilhemsbad de 1782.

“Logo se podemos conceber e executar nossos planos com toda liberdade, devemos deixar subsistir alguma coisa da ordem dos Templários? Ainda que não ignoremos que, sobre esta questão, vários Irmãos se pronunciaram afirmativamente [1], parece, no entanto, (se isto não lhes incomoda sobremaneira) que a multitude de considerações devem levar-nos a opinião contrária.

Se quiser, passemos por alto o palpável inconveniente de expôr-nos em vão, e correr o risco de alarmar aos governos suspeitas sem nenhum aspecto favorável a nós ou para nossos semelhantes [2]. Já havíamos falado bastante sobre esta consideração. Julgamos melhor as coisas por si mesmas.

A ideia de um monge soldado só poderia nascer de uma mente do séc. XII. Mas que no século XVIII exista uma sociedade que tenha como objetivo principal celebrar as desgraças de uma dessas fraternidades guerreiras, e que se honre de pertencer a ela por uma filiação mais do que suspeita, é o que pode parecer um pouco singular.

Falemos somente da Ordem dos Templários, por que razão merecem a consideração do gênero humano? Eles protegiam, diz-se, os cristãos que sua piedade conduzia ao Santo Sepulcro. Pois bem, todos esses cristãos teriam feito melhor rogando a Deus em suas paróquias [3]. É a eles a quem se deveria dizer:

Est-ne Dei sedes nisi Terra et Pontus et Aer?
Et coelum et Virtus? Numen quid quoeritis ultra? [4]

E ainda que tivéssemos em conta aos Cavaleiros Templários este pequeno mérito, seremos obrigados a reconhecer que não o conservaram durante muito tempo. Sessenta anos depois, vemos sua instituição na França e no resto da Europa; e desde então se sabe qual foi sua conduta. A Deus não agrada que se adote acusações horríveis contra esses desventurados. Mas reconheçamos também que o homem estimado não tem necessidade de provar que não é um monstro. É certo que os costumes dos Templários eram maus; e talvez não faria falta outra prova senão a da opinião pública, em vista de uma expressão proverbial que quatro séculos mais tarde ainda podemos encontrar na língua francesa [5].

Parece então que tudo nos convida a romper completamente com a ordem dos Templários. Todas as mudanças apresentadas nos mostram essa necessidade. Nos perguntamos se não é um escárnio aos bens, as regras, ao nome e inclusive ao hábito da ordem, e no entanto obstinar-se em querer ser um templário. Se pode-se falar com clareza, direi: é o querer ser e não sê-lo. Em uma palavra, se a maçonaria não é mais que um emblema dos templários, esta não é nada, e é preciso trabalhar sobre um novo plano. Se, pelo contrário, é mais antiga, maior a razão para que os homens renunciem as vãs fórmulas e deixem as palavras pelos feitos.

Pode-se contestar que há razões para acreditar que os Templários foram iniciados. Nesse caso, teremos motivos para assombrar-nos que tenham aproveitado tão pouco estes conhecimentos tão sublimes. Por demais, é certo: 1º, que a Iniciação é mais antiga que os Templários; 2º, que subsistiu depois deles; e 3º, que para propagar-se entre os homens eleitos não necessitou do ministério exclusivo de seus supostos sucessores. Logo, supondo que os Templários, ou o que parece mais provável, alguns deles, haviam possuído a ciência, não seria razão suficiente para pretendermos nos identificar com sua Ordem.

Parece inclusive que devemos dar um passo a mais e abandonar na nova formação tudo o que tenha a ver com a cavalaria. Esta espécie de instituição é excelente, mas temos que deixá-las em seu lugar. A nobreza é uma dessas plantas que não pode viver se não estiver ao ar livre. De que serve um cavaleiro criado a luz de velas no fundo de um apartamento, cuja dignidade se dissipa quando abre-se a porta? No geral, desejaria vivamente ver desaparecer todas as palavras que não significam ações.

Como é lógico, antes de construir, tem que nivelar o solo, e nos tem parecido conveniente examinar o que não devemos ser, antes de buscar o que devemos ser. Não resta mais do que tratar desta segunda questão”.

Notas:

[1] Tal era a opinião de Willermoz, como escreveu a Joseph de Maistre em 09 de julho de 1789 (expediente Iluminados);

[2] A tese da origem Templária teria um caráter mais bem hostil ante a Monarquia e ao Papado;

[3] Maistre mudaria mais tarde sua opinião sobre as Cruzadas. Cf. Du Pape, discurso preliminar, e 1. III, Cap.VII. “Nunca pude suportar que falassem contra as Cruzadas. São palavras de vilões!”, escrevia ele mesmo, em 20 de julho de 1819 ao oficial da marinha russa que o havia trazido da Rússia para a França. Oeuvres complètes, tomo XIV, pág. 180;

[4] Por acaso deus tem outra sede que a Terra, o Mar, o Ar, o Céu e a Virtude? Porque buscais em outra parte a divindade? – Lucain;

[5] Beber ou jurar como um Templário.

ATA DE “RENÚNCIA” A RESTAURAÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO (CONVENTO DE WILHEMSBAD, 1782)

ATA DE “RENÚNCIA” A RESTAURAÇÃO DA ORDEM DO TEMPLO (CONVENTO DE WILHEMSBAD, 1782)

Na segunda sessão de 29 de Julho de 1782 do Convento de Wilhemsbad, retornando às questões levantadas por ele mesmo na oitava sessão de 25 de Julho, Jean-Baptiste Willermoz conclui declarando de forma solene:

  1. Que não temos nenhum interesse na restauração da Ordem do Templo relativo as posses e riquezas que lhe foram tiradas; Mas que em todo caso, é na qualidade de maçons desejosos de participar dos conhecimentos científicos dos quais ela parecia possuidora, que temos grande interesse em estabelecer nossa filiação com ela;
  2. Que o sistema de filiação e restauração relativo aos títulos, riquezas e quaisquer posses dessa Ordem é absurdo, ridículo e ilícito, já que não temos o menor título a apresentar para sustentar tal pretensão;
  3. Que, mesmo que este sistema estivesse fundamentado sobre títulos incontestáveis, seria imprudente, prejudicial para o progresso da Ordem Maçônica, e inclusive muito perigoso para a dita Ordem e para os indivíduos que a compõem, o reconhecer, sustentar e favorecer de alguma maneira a continuação deste sistema; que no caso de alguma sociedade conhecida ou desconhecida quisesse intentar realizar de algum modo o sistema de restauração efetivo, não devemos tomar parte nela em absoluto, e inclusive devemos romper toda espécie de ligação com a dita sociedade, caso existisse;
  4. Que o Convento Geral da Ordem deverá incluir em suas atas uma declaração obrigatória para todos aqueles que estão representados, de forma nítida e precisa sobre este assunto;
  5. Que a filiação dos maçons com a Ordem do Templo seja relativa aos conhecimentos científicos da maçonaria, estando estabelecida por uma tradição constante e universal, comprovada por monumentos e testemunhos autênticos, sendo útil e necessário conservar ou estabelecer uma conexão íntima entre a Ordem Maçônica e Ordem do Templo da maneira mais conveniente e mais adequada para favorecer o progresso dos maçons em seu objetivo científico, sem que isso possa provocar a menor inquietude aos governos políticos;
  6. Rogo ao Convento Geral, em nome do Grande Capítulo Provincial de Auvérnia, registrar em ata minhas conclusões sobre as três questões acima

Posteriormente, em 21 de Agosto de 1782, se firmaria a seguinte Ata de Renúncia pelo Sereníssimo Grão-Mestre Geral e por todos os Delegados Assistentes do Convento:

“Nós, Grão-Mestre Geral, Chefes e Deputados dos Diretórios e Grandes Lojas Escocesas do Regime Retificado, renunciamos por nós, por nossos irmãos e sucessores, publicamente e solenemente, a um sistema que poderia ser perigoso em suas consequências, incompatível com a constituição atual da Europa, e capaz de produzir preocupação aos Soberanos, aos quais nossa primeira lei nos ensina a clamar e respeitar: Declaramos que se em algum momento nos foi imputado alguma restauração mal entendida da Ordem dos Templários, ou se algum irmão se afasta dos princípios sábios que temos adotado neste sentido, o desaprovaremos, apresentaremos a ofensa para desculpar-nos na presente ata, que firmamos todos por nossas mãos.”