Sello Oração E Caridade

Respeitável Loja de São João

Oração e Caridade nº 22

Da Ressurreição dos Corpos Gloriosos – Por Jean-Baptiste Willermoz

Da Ressurreição dos Corpos Gloriosos

Por Jean-Baptiste Willermoz

Epígrafe 18 de sua obra O Homem-Deus, Tratado das duas Naturezas.

“Porém, mal o terceiro dia começa, ressuscita gloriosamente da tumba por seu próprio poder divino, e começa a mostrar-se aos que o amaram o mais ternamente possível, sob uma nova forma corporal, em tudo semelhante aquela que havia vivido entre os homens, mas glorioso e impassível, da qual se reveste e que faz também desaparecer a sua vontade. É com esta mesma forma gloriosa que após ter conversado, caminhado e comido com seus discípulos durante quarenta dias, aparecendo-lhes repentinamente e desaparecendo também repentinamente diante deles quando assim o queria, depois de haver-lhes recomendado que batizassem em seu nome, de ensinar aos homens o mistério inefável da Divina Trindade do Pai, do Filho e do Espírito Santo, que são um só Deus, que ascende gloriosamente ao céu em sua presença, onde será eternamente o Deus, tornado visível aos anjos e aos homens santificados, nesta forma humana glorificada.

Mas, qual é a natureza desta nova forma corporal, e o que constitui a diferença essencial entre esta e a primeira? Perguntamos a estes homens carnais e materiais que não veem nada mais além do que pelos olhos da matéria, e aqueles que são bastante infelizes para negar a espiritualidade de seu ser, e aqueles também que, unidos exclusivamente no sentido literal das tradições religiosas, não querem ver na forma corporal do homem primitivo antes da sua queda, mais que um corpo de matéria com o qual estão atualmente revestidos, reconhecendo somente uma matéria mais purificada. É o próprio Jesus Cristo que vai provar-lhes a diferença essencial destas duas formas corporais e seu destino, revestindo-se de uma após sua ressurreição, depois de ter destruído a outro no túmulo.

 

Jesus, Homem-Deus, queria ser em tudo similar ao homem atual, para poder oferecer a si como um modelo que pudesse imitar em tudo, se submeteu a revestir-se nascendo de uma forma material perfeitamente semelhante à do homem castigado e degradado. Ele difere, no entanto, em um único ponto em que a forma material do homem concebido pela concupiscência da carne é corruptível, ao passo que a forma material de Jesus, concebida pela única operação do Espírito Santo e sem nenhuma participação dos sentidos materiais, é incorruptível. Mas, Jesus Cristo deposita na tumba os elementos da matéria, e ressuscita numa forma gloriosa que já não tem mais a aparência de matéria, que inclusive não conserva mais os Princípios elementares, e que não é mais do que um envelope imaterial do ser essencial que quer manifestar a sua ação espiritual e tornar-se visível aos homens revestidos de matéria. Se alguém duvidar desta importante verdade, que reflita seriamente sobre as assombrosas aparições sob formas humanas do arcanjo Gabriel a Maria e a Zacarias, pai de João Batista, sobre as dos anjos enviados a Abraão para predizer-lhe o nascimento de Isaac e da punição de Sodoma, do anjo condutor do jovem Tobias, e de um grande número de outras aparições similares aos espíritos puros, cuja forma corporal se reintegrou em si mesma e desapareceu tão logo quando terminou sua missão particular. Todas elas provam a mesma verdade. Jesus Cristo ressuscitado, reveste-se desta forma gloriosa cada vez que quer manifestar sua presença real a seus apóstolos, para fazer-lhes conhecer que é desta mesma forma, ou seja, de uma forma perfeitamente semelhante e tendo as mesmas propriedades, que estava revestido o homem antes de sua prevaricação; e, para ensinar-lhes o que devem aspirar, a ser revestidos novamente depois de sua perfeita reconciliação, no fim dos tempos. Consequentemente, essa ressurreição gloriosa dos corpos, que serão ao mesmo tempo, transfigurados pelos homens reconciliados, bem como o expressou São João, mas que não serão transformados pelos rejeitados. É esta ressurreição, em fim, gloriosa que a consumação real do corpo e do sangue de Jesus Cristo traz a todos que participam dignamente, o germe frutificador.”

A Festa da Renovação da Ordem

A Festa da Renovação da Ordem

De 06 de novembro, por Gilles Ducret

Eis que, há pouco mais de dois séculos, a Maçonaria Retificada tomava corpo no Convento Nacional de Lyon, realizada em novembro de 1778. É deste Convento que data o Código Maçônico das Lojas Reunidas e Retificadas que prevê, no capítulo de Banquetes & Festas, junto as de São João, esta festa de Renovação da Ordem de 06 de novembro.

O referido Código especifica que durante esta Festa será feito a leitura do Código dos Regulamentos Maçônicos e o Orador pronunciará um discurso solene, no decorrer da qual sugerirá que se possa falar da reforma alemã e francesa, e das ações de beneficência que a Maçonaria tem feito nas diversas regiões da Europa. Prevê também que será tratado, neste dia, de reunir no mesmo local todas as Lojas da mesma cidade ou de uma mesma Comarca.

Não querendo tomar aqui o lugar do Irmão Orador, nosso papel se limitará, simplesmente, a chamar a atenção dos Irmãos sobre a importância que reveste esta Festa, também para a Ordem em geral, e para esta Loja e cada um dos que a compõem em particular.

Nos limitaremos a três observações e um desejo:

I. A importância desta Festa para a Ordem em geral

Esta Festa, enquanto Festa da Ordem, nos parece afirmar três coisas essenciais:

  1.  A noção de Ordem;
  2. A ideia de uma renovação da Ordem;
  3. A consciência da vocação iniciática da Ordem.

1º. A noção de Ordem

Esta noção de Ordem está sempre presente na Maçonaria Retificada. Mas, de que Ordem se trata?

O Irmão Preparador anúncia durante a entrada do candidato (cf. Ritual do Grau de Aprendiz.)

“Lhe convidamos a não confundir jamais a respeitável Ordem dos Franco-Maçons com essa multidão de indivíduos, e também de Lojas, que usurpam esse título, embora ignorem ou desconheçam a finalidade real e seus verdadeiros princípios, e que degradam assim a Franco-Maçonaria com sua conduta, e mais ainda pelas falsas doutrinas que adotam e que não escondem professar”.

O Venerável Mestre veste o Aprendiz com o avental dizendo-lhe (cf. Ritual do Grau de Aprendiz.) “Receba de minhas mãos o hábito da Ordem mais antiga e respeitável que jamais existiu”.

Trata-se assim, sem nenhum equívoco, da Ordem dos Franco-Maçons.

2º. A ideia de uma renovação da Ordem

Diz-se, que a Maçonaria Retificada sempre desejou, desde sua fundação, por reformar, por restituir a Franco-Maçonaria autêntica. Todos conhecem esta passagem de uma carta de Willermoz a Charles de Hesse, de 12 de outubro de 1781: “Estou convencido, desde minha entrada na Ordem, de que a Maçonaria velava verdades raras e importantes, e esta opinião se transformou em minha bússola”.

Desde então, para Willermoz, retificar a Maçonaria foi sua razão de existir, fazendo dela o veículo das “verdades raras e importantes” que ela possuía sob forma velada. Esta aí o que podemos chamar de Renovação da Ordem, pois a retificação esperada e trabalhada por Willermoz encontrou sua consagração nos Conventos de Lyon e Wilhelmsbad.

3º. A consciência da vocação iniciática da Ordem

É em razão desta vocação iniciática que a Maçonaria havia perdido, pelo que Willermoz empreendeu sua retificação, trazendo os Irmãos de volta à Ordem. É essencial para um Maçom, sentir que pertence a uma Ordem com a qual deve formar um corpo. E esta festa, como as demais festas, nos permite reafirmar, de coração e de palavra, este laço essencial.

II – A importância desta Festa para nossa Loja

O trabalho de retificação da Maçonaria, empreendido por Willermoz, deve ser continuado por nossa Loja. A este respeito, três coisas nos parecem essenciais na renovação de nossa Loja:

  1. A busca da unidade;
  2. O ideal espiritual mais elevado;
  3. O trabalho necessário para alcançá-lo.

1º. A busca da unidade

Nossa Loja deve assim ter, continuamente, a preocupação pela sua coesão, por sua unidade, que lhe assegurará a estabilidade necessária em seu desenvolvimento.

2º. O ideal espiritual mais elevado

Este ideal espiritual passa, primeiramente, pela consciência constante de representar nos trabalhos da Loja a Ordem dos Franco-Maçons, no que ela tem de melhor, de mais respeitável e de essencial. É a própria consciência, a ideia fixa de Willermoz: “a Maçonaria é o veículo de verdades raras e importantes”.

3º. O trabalho necessário para alcançá-lo

É o trabalho em seu sentido mais espiritual. Nada pior que uma Loja que sussurra comodamente no conforto espiritual de uma boa oficina, crendo-se a melhor das oficinas de obreiros, o “modelo a ser seguido”. É a análise profunda dos símbolos da Loja, através de uma prática rigorosa do Ritual, da exigência desse trabalho diante dos Irmãos que a compõem.

III – A importância desta Festa para cada um dos Irmãos da Loja

Este trabalho de retificação deve ser continuado, também, para cada um dos Irmãos. A esse respeito, três coisas nos parecem essenciais ao Maçom para sua própria renovação:

  1. O sentido de compromisso na Ordem;
  2. A consciência de uma renovação necessária;
  3. O sentido do amor fraternal.

1º. O sentido de compromisso na Ordem

O compromisso do maçom é algo de suma importância. Sim, porque não é um compromisso penoso, é o compromisso do homem livre.

E esta Festa da Renovação da Ordem, não é também a Festa em que nós mesmos renovamos nossos compromissos perante Deus, perante nossos Irmãos e perante a humanidade? Nosso compromisso na Ordem traz em si a verdadeira liberdade, como verdadeiramente é uma semente.

2º. A consciência de uma renovação necessária

Se não tivéssemos consciência desta necessidade, estaríamos aqui neste momento? Trata-se, como bem disse São Paulo, “de matar o homem velho para originar o homem novo”, como que fazendo eco as palavras de João Evangelista: “Eis que faço coisas novas”. Em virtude das maravilhosas correspondências que tem com o milagre da Unidade, a Ordem é também nossa própria ordem interior. É verdadeiramente inerente a uma Ordem autenticamente iniciática, que nos permite reencontrar nossa ordem interior. Em outras palavras, esta Festa é também a Festa de nossa própria renovação na Ordem.

3º. O sentido do amor fraternal

É o amor que nos renova, que transforma a visão com que olhamos nossos Irmãos. Como se pretende amar Deus se somos incapazes de amar nossos Irmãos? Amar teu Irmão pelo que ele realmente é, pelo que ele É no fundo de si mesmo, sendo assim tanto para você quanto para qualquer outro, que esta renovação revela cada um a si mesmo. É nisto que consiste a revelação que Nosso Senhor nos revela no mais profundo de nossos corações, ali onde o silêncio e a pureza recebem sua Palavra reveladora.

Que possamos dizer com o apóstolo João, o bem-amado do Senhor, “sabemos que passamos da morte para a vida porque amamos nossos Irmãos”. Em outras palavras, esta Festa é também a Festa de nossa própria renovação no amor fraternal.

E para concluir, um desejo…

Que esta Festa seja vivenciada, no próximo ano, como uma verdadeira Festa, com toda a alegria, todo o amor fraternal e todo o esplendor que ela merece. Que nesta ocasião, tenhamos todos uma plena consciência de ser um com esta Ordem, a mais antiga e respeitável que nunca existiu.

Que possamos, para a Glória do Grande Arquiteto do Universo, e em nome da Ordem, nos preparar no mais profundo de nossos corações, ali onde cessam todas as palavras vãs, mas onde reina o Verbo, eternamente, a fim de que estejamos verdadeiramente renovados.

Substitução de Tubalcaim por Phaleg

SUBSTITUIÇÃO DE TUBALCAIM POR PHALEG

ATA DA REUNIÃO DO DIRETÓRIO PROVINCIAL DE AUVERNIA.

No dia de hoje, domingo, 05 de março de 1785, o Diretório Provincial de Auvernia com sede em Lyon, estando regularmente convocado e reunido, com a Regência Escocesa e o Diretório Escocês, o Respeitável Irmão Cavaleiro de Savaron, Presidente, tem observado que o comitê nomeado para a redação dos graus de acordo com as decisões do Convento, acreditaram ser oportuno mudar a palavra de passe de Aprendiz Tubalcain por Phaleg, que o Respeitável Irmão Willermoz, Conselheiro Geral, encarregado pessoalmente pelo Convento de Wilhemsbad da revisão dos graus, havia dado para esta troca motivos que incumbia dar conhecimento aos Diretórios presentes, convidando este Respeitável Irmão a explicar-se a respeito, e convocando aos Irmãos presentes, a examinar as razões que foram alegadas para deliberar a continuação.

O Respeitável Irmão Willermoz, correspondendo a requisitória do Presidente da Assembleia, disse: “que independentemente da multitude de razões que poderia alegar para a mudança da palavra Tubalcain, há entre elas uma, que parece estar feita para aqueles que pensam justamente que nada é indiferente na Maçonaria, e esta é que, Tubalcain, que foi filho de Lamech, o Bígamo e de Zilá, foi o primeiro que conheceu a arte de trabalhar com o martelo, e foi hábil em toda sorte de trabalhos em cobre e ferro, por isso é chamado o inventor, o pai da arte de trabalhar os metais, e esta é a explicação que se da”.

Porém não se deram em conta que é um contrassenso dar ao Aprendiz esta palavra de passe depois de haver-lhe feito deixar todos os metais que são o emblema dos vícios.

Com efeito, por um lado, se lhe ensina que não é sobre os metais que o verdadeiro Maçom deve trabalhar; e por outro, se lhe põe em situação de crer que Tubalcaim, Pai e inventor do trabalho sobre os metais, seria o primeiro fundador da Maçonaria elevada.

Se Tubalcaim foi o fundador de uma iniciação qualquer, podemos ver qual deveria ser o objeto e o objetivo desta iniciação pelo que dele dizem as Escrituras, e neste século no qual tantos Maçons se ocupam da alquimia, um Regime que conhece seus perigos não deve conservar um nome que se tem perpetuado pela ignorância ou pela falta de atenção daqueles que não se deram conta desta relação e esta inconsequência, e estão por isso ainda ligado àqueles outros que se ocupam em imitar a Tubalcaim que, foi o primeiro a tocar os metais.

Se desta observação passarmos ao exame do tempo em que viveu Tubalcaim, veremos que foi antes do dilúvio, flagelo com o qual Deus quis apagar da face da terra as obras dos homens.

Tudo o que remonta a essa época não deve parecer puro, e se deve temer alguns daqueles que atraíram a ira de Deus sobre os homens.

Se a iniciação de Tubalcaim se propagou, esta é impura, e pareceria importante romper toda relação com ela, uma vez que se retira dos maçons todos os metais, emblema por outro lado verdadeiro e preservado em todos os regimes, como que para separá-los daquele que os trabalhou primeiro.

É portanto depois do dilúvio, no tempo da confusão das línguas, quando encontraríamos a razão da fundação de uma iniciação secreta que tem-se perpetuado e que é o objeto da busca dos maçons.

Um estudo da verdade feita a partir das mais puras intenções nos têm conduzido a saber que é nos descendentes de Sem onde devemos buscar a fundação da verdadeira iniciação.

Sem foi abençoado por Noé, e nos levam a crer que Phaleg, filho de Heber e descendente de Sem, que foi o pai de todos os filhos de Heber, é o fundador de uma única e verdadeira iniciação, por este motivo parece determinante para substituir o nome de Tubalcaim pelo de Phaleg.

Cam amaldiçoado por Noé fará sua iniciação, tudo o testemunha, e que sua palavra de passe tem sido Tubalcain, que é o emblema dos vícios, e que convêm aos filhos de Canaã que a tem transmitido; mas devemos recordar que está dito: Maldito seja Canaã, seja diante de seus irmãos o escravo dos escravos.

Desejosos por descender de Sem, os verdadeiros maçons devem se apressar-se em separar-se para sempre dos filhos de Canaã, que devem ser aos olhos de seus irmãos os escravos dos escravos.

Estes motivos têm sido ainda mais detalhados no comitê, que finalmente tem reconhecido que é com razão que Phaleg é designado como fundador da Maçonaria e o primeiro a ter uma Loja.

Os Diretórios reunidos deliberaram sobre esta questão importante, decidiram unanimemente, definitivamente e para sempre:

ARTIGO I

Que o nome de Tubalcain seja suprimido e substituída pelo de Phaleg do qual se dará explicação verdadeira ao Aprendiz, que esta mudança terá tido lugar durante a primeira assembleia da Loja Beneficência e, logo que possível na do distrito.

ARTIGO II

Decidiu-se que a presente deliberação seja enviada para S.A.R. o Smo. e Emo. Grão-Mestre Geral da Ordem, o Irmão Príncipe Ferdinand Duque de Brunswick e S.A.R. o SMO. o Príncipe Charles de Hesse-Cassel, já que estamos convencidos de que estes dois ilustres Irmãos, reconhecerão a veracidade dos motivos que determinaram aos Irmãos deste distrito a alteração da palavra de passe, e se empenharam com toda a sua autoridade para fazer que seja adotado em todas as instituições do Regime.

ARTIGO III

Parecido envio será feito a Sua Grandeza, o Mestre Provincial do Território, o Smo. Irmão Duque de Havre e de Croy, que aprovou a deliberação dos Diretórios, havendo tido comunicação particular dos motivos que devem determinar a mudança; rogando-lhe garantia com toda sua autoridade sua execução.

ARTIGO IV

Finalmente, como esta troca tende a estabelecer uma diferença essencial na busca da verdade maçônica e que a palavra Tubalcaim tem sido conservada sem haver-lhe dado muita atenção neste Regime, porque aparentemente não havia nenhuma diferença, os outros Diretórios serão convidados a tomar em consideração os motivos anteriormente alegados, e a esses efeitos, lhes será dirigida copia formal pelo Conselheiro Geral do Território, que lhes fará conhecer a razão de uma mudança, que sem a exposição dos motivos, poderia parecer arbitrária e demasiada precipitada; o Diretório de Auvérnia buscando todos os meios de aproximação da verdade, e em manter os laços de fraternidade.

Assim feito e decretado no Diretório a fim de que seja para sempre estabelecido neste distrito, em Lyon, nos dias e ano anteriormente ditos.

Extrato retirado e organizado com o Protocolo por nós, Conselheiro Geral do Território. Em Lyon, em 18 de junho de 1785. Assina, Willermoz primogênito.

Expedição para ser depositada nos arquivos da Respeitável Loja da Triple Union, ao Oriente de Marselha, que eu certifico conforme e verdadeira.

Lyon a 27 de junho de 1785.

Carta de Jean-Baptiste Willermoz sobre a Grande Profissão

CARTA DE JEAN-BAPTISTE WILLERMOZ SOBRE A GRANDE PROFISSÃO (1807)

Se trata de um texto de Jean-Baptiste Willermoz sobra a Grande Profissão, com assinatura 173, intitulado: Artigo secreto anexo a minha carta de 1º de setembro de 1807, publicado em castelhano no “Documentos Martinistas VI, Ed. Manakel, Madri, 2021.
O destinatário desta carta é Claude-François Achard, Eques a Galea Aurea (Elmo de Ouro), nascido em Marselha em 23 de maio de 1751.

 

“Vendo a solicitação dos Irmãos mais avançados nos graus desejando que eu viaje a Marselha, parece-me evidente que entre os motivos que alegam, para alguns, existe uma em particular (menos confessado por alto…) o qual provavelmente é o principal. Desde a revelação feita há alguns anos sobre a existência no Regime de uma classe secreta e última, revelação que tenho censurado por seus perigos, mas que foi necessário para reorientar aqueles que haviam se desviado, além de apoiar aqueles que cambaleiam e também despertar de seu adormecimento a multidão caída nesta mortal letargia; cada um dos aspirantes fez seus cálculos particulares e consequentemente com muitos erros; pois cada um deles se julgou apto para a ‘coisa’ e capaz de participar nela sem conhecer, nem as regras, nem os deveres e nem as condições. A maioria daqueles que se encontram fechados em suas casas devido a natureza de seus assuntos pessoais, e por temor ou impotência de custear os gastos da viajem, de uma estadia mais ou menos prolongada em Lyon, naturalmente devem desejar que levem até eles o que não podem ou não querem vir buscar aqui. Mas, ainda que estivessem em Marselha, muitos deles se desiludiriam [sic – estariam decepcionados?] porque há regras muito rígidas a respeitar deste assunto; seria necessário que minha estadia ali fosse bastante prolongada para que pudesse analisar uma a uma as disposições e a aptidão pessoal de cada um em particular, o qual seria extenso e difícil com pessoas que não conheço em absoluto. Mas provavelmente haveria, para alguns afortunados, muitos descontentes, que por sua vez, crendo-me parcial, me julgariam de maneira severa. Além disso, segundo os mesmos princípios da Ordem, a entrada nesta Classe não pode estar aberta a todos os Cavaleiros, porque os graus de inteligência e de aptidão para estas coisas não são os mesmos para todos, e que, em alguns aspectos, podem até parecer dignos dele. E para levá-los a dar outra direção as ideias insanas e muito pouco reflexivas de alguns, que vou aprofundar-me aqui neste assunto, mais do que tenho feito até agora e a apresentarei sob suas diferentes facetas.

A sétima e última Classe que completa o Regime Retificado, e que deve permanecer ignorada pelas seis precedentes, até que se chame individualmente cada um daqueles que são julgados aptos a ascender até ela, é uma Iniciação particular que consiste em diversas instruções escritas, em que se desenvolvem os princípios e as bases fundamentais da Ordem e onde se explicam os emblemas, símbolos e cerimônias da Maçonaria Simbólica, mas esta Iniciação, por mais luminosa que seja, segue sendo imperfeita, insuficiente, inclusive pode ocasionar erros devido as más interpretações as quais nos entregamos muitas vezes, se não for acompanhada por outras instruções explicativas, as quais, não estando escritas, dá-se apenas verbalmente para aqueles que, por longos trabalhos e meditações alcançaram o grau, e assim possa-se distribuí-las a cada um convenientemente, segundo suas necessidades, suas aptidões e na justa medida do que lhes é necessário. Foram transmitidas desde tempos imemoriais por uma tradição oral que atravessou os séculos e se mantém por bons testemunhos. Eis porque devemos deixar que ignorem esta Classe, e fechar a entrada para aqueles a quem não se vislumbra a aptidão necessária para bem aproveitá-la; e igualmente para aqueles que, sobrecarregados demais por seus assuntos pessoais ou por preocupações temporais, não possuem a liberdade de espírito que se exige, nem dispõem do tempo necessário para conhecê-la em sua plenitude: você deve saber que este tempo exigido pode não ser curto. Também deve saber que, entre aqueles que a receberam de forma suficiente para sua formação pessoal, há pouquíssimos que atingem a capacidade de poder ensiná-la aos demais devidamente, já que isto é o resultado de uma disposição e uma vocação particular; eis porque a guarda destas instruções raramente é confiado a lugares onde não se encontram homens bastante fortes para explicá-los e valorizá-los.

Além disso, esta iniciação não pode admitir igualmente todos os cavaleiros, ainda que todos tenham o mesmo direito e que as disposições pessoais de cada um sejam iguais. É inútil e dispensável para um grande número. Traz perigos para alguns. É útil para muitos, e para outros é necessário e indispensável. Retomo as quatro distinções que é importante que entendeis bem:

1º – É inútil para a multidão destes homens bons, simples, privilegiados, cuja ciência está em seu coração, que tem a sorte de crer religiosamente e sem exame, tudo o que é necessário que acreditem para sua tranquilidade e sua felicidade, presente e futura, e creem com essa fé implícita que chamam vulgarmente de a “fé do carvoeiro”; para estes, a profissão de fé dos cavaleiros é absolutamente suficiente. Não seria de nenhum proveito para eles que lhes apresentassem outros objetivos que iriam apenas cansar e exaltar sua imaginação e perturbar seu gozo atual, além do que, normalmente, a inteligência destes não é nem ativa, nem muito profunda;

2º – Pode trazer certo perigo para aqueles que, seja pelo efeito de sua educação religiosa ou por sua disposição natural, entregaram-se a tarefa de suprimir a sua própria razão para adotar cegamente todas as pretensões, opiniões e decisões, ultramontanos*, e consequentemente o espírito de intolerância que sempre os acompanhou, prejudicando a Religião que tanto sofreu e segue sofrendo por estes fatais empreendimentos sugeridos pelo espírito de orgulho, de ambição, de dominação e de o mais sórdido desejo. Para aqueles que querem exigir para suas decisões humanas, as mais interessadas, variadas e de simples disciplina momentânea, o mesmo grau de fé absoluta que é devido essencialmente aos dogmas fundamentais da religião, estabelecidos por Jesus Cristo e seus Apóstolos, constantemente professados, sustentados e confirmados pela Igreja universal em seus Consílios gerais. Para aqueles que, tomando literalmente e ao pé da letra todas as palavras e expressões empregadas no Gênesis e em outros livros santos, sem buscar penetrar até o espírito que está velado sob a letra, estão sempre dispostos a escandalizar-se com toda interpretação ou explicação que não corrobora perfeitamente com o sentido particular que lhe dão. Seria inútil expô-los a um trabalho tão ingrato que lhes seria penoso, muito mais quando estas ideias, que estão assentadas na inteligência humana, raramente saem de lá, e temo muito que haja mais de um nesta classe entre os Irmãos Cavaleiros;

3º – É muito útil para o maior número daqueles que creem, mas fracamente, nas verdades fundamentais da religião cristã, que sentem uma necessidade interior de crer mais firmemente, mas, por não conhecer a verdadeira natureza original do homem, seu destino primitivo no universo criado, o tipo de sua prevaricação, sua queda, sua degradação e os terríveis efeitos que produziram na natureza, não encontram neles nem fora deles sustentação sólida para fixar invariavelmente sua crença, desejam acreditar mais dos que realmente acreditam, e veem fluir suas vidas em aflições e angustias de uma penosa incerteza. Para estes, há de se concordar, é um grande auxílio, já que devolve a calma e a fé que desejam;

4º – Finalmente, a Iniciação não só é útil, mas muito necessária para esta classe de homens de boa fé, muito mais numerosos do que se pensa, que creem firmemente na existência de um Deus Criador de todas as coisas, bom, justo, que castiga e recompensa, mas que, por falta de conhecer suficientemente sobre os pontos da doutrina primitiva já citadas anteriormente ao longo do artigo, custa-lhes conceber a divindade de Jesus Cristo e ainda mais a necessidade de redenção através da encarnação de um Deus feito Homem. A estes homens meditativos para os quais as demonstrações teológicas mais usadas, apresentadas ordinariamente como provas fascinantes (mas frequentemente questionadas…), não são provas suficientes; para estes que toda banalidade que tende repercutir na carne é insuficiente para sua convicção. Sim, é a estes que é mais necessário, e a quem deve necessariamente ser especialmente destinada. Não posso duvidar deles, havendo testemunhado muitas vezes seus resultados afortunados, já que estes homens de boa fé, uma vez convencidos e recolhidos em si mesmos pela força das consequências imediatas dos pontos da doutrina que lhes foram apresentados, tem feito irromper sua mudança por lágrimas de amor e agradecimento para com Aquele que, por pura desgraça, desconheciam, e se converteram desde então em colunas inquebráveis da fé cristã.

É por isso que a Ordem exige para os altos graus uma crença absoluta na Unidade de Deus, na Imortalidade da Alma humana, e o exige menos absolutamente para a pessoa Divina de Jesus Cristo, e vemos inclusivamente na profissão de fé dos cavaleiros, como em outros atos relativos, que você se mostra mais complacente a este respeito, e quase se conforma com uma boa e firme vontade de crer nas verdades que lhe são necessárias. É porque sabe que tem meios particulares para atrair a esta crença e convencer sobre esta importante verdade aos homens de boa fé. E é por isso que exige também de todos os membros uma tolerância universal de que faz um princípio e um dever absoluto para todos – e nisto, imita o exemplo Daquele que disse: “não vim a este mundo para as pessoas que se portam bem, mas vim para aliviar e curar aqueles que estão doentes” – e como Jesus Cristo em meio a esta multidão de enfermos não rejeitou nem aos ignorantes nem aos sábios, nem aos fariseus, nem aos mercadores, mas sim os acolheu a todos, com a mesma bondade, por acaso há de assombrar-se de que a Ordem, à sua semelhança, acolha em seu seio com a mesma caridade todos os cristãos bem-dispostos, ainda que divirjam em opinião e formem seitas diferentes sobre pontos da doutrina mais ou menos importantes? Depois de conduzi-los pela instrução à crença religiosa fundamental e necessária, deixa-se à graça divina o cuidado de operar as mudanças interiores ou exteriores que julga necessárias segundo o Desejo de Sua Providência. A Ordem proíbe-se julgar e mais ainda condenar qualquer um daqueles que permanecem ligados aos verdadeiros princípios e deixam o juízo ao único que pode verdadeiramente julgar os pensamentos e as intenções dos homens.

Você vê nesta exposição, Querido Irmão, que a Iniciação é especialmente reservada para os Irmãos doentes, isto é, para aqueles que sentem vivamente os sofrimentos e a causa de sua doença e desejam sinceramente curar-se. É inútil para os demais e muitas vezes só seria um novo alimento para o orgulho, a vaidade e a curiosidade humana. Veja quanto esta escolha é delicada e quanto exige, para com aqueles que não conhecemos, o tempo e a precaução para fazê-lo bem.

É especialmente para você, Querido Irmão, que tracei a exposição anterior dos princípios gerais que devem servir de regra para a conduta a ser observada para com cada um.

No entanto, te rogo que comunique esta mensagem ao Irmão Vigier, para quem a impossibilidade de apresentar-se é o único obstáculo que conheço para seu avanço. Não me oponho também que comuniques fragmentos mais ou menos extensos desta mensagem a um pequeno número de cavaleiros aos quais julgue unanimemente útil para seu próprio bem e torná-los conhecidos para a ocasião, comunicando-me logo seus nomes”.

 

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.

* aqueles que apoiam e defendem a autoridade e o poder absoluto do papa.

Sobre o silêncio que deve ser observado em nossas cerimônias

SOBRE O SILÊNCIO QUE DEVE SER OBSERVADO EM NOSSAS CERIMÔNIAS

Os conselhos anexos ao Ritual de Aprendiz incluem uma seção específica “sobre a música”, onde diz: “O ritual frequentemente faz alusão ao silêncio. A música não tem lugar nas Cerimônias de Iniciação, de Passagem e de Elevação que devem ser feitas como o Ritual o indica, no mais profundo silêncio. A música não está nem na tradição nem no espírito do Retificado, que se reveste de uma certa desnudez.

O Código das Lojas Reunidas & Retificadas da França de 1779, Capítulo XVI (sobre o controle interno das Lojas), em seu segundo paragrafo coloca claramente: “Se ordena aos Irmãos guardar o mais profundo silêncio durante as Cerimônias de recepção”.

Além disso, o V. M. repete sempre que termina de abrir os Trabalhos (havendo ou não Cerimônia de Recepção) em qualquer dos graus: “Ordeno, em nome da Ordem, o mais profundo silêncio a todos os Obreiros”.

A palavra “silêncio” repete-se até 25 vezes ao longo do Ritual de Aprendiz entre os diversos procedimentos (e segue esta mesma linha no resto dos rituais), destacando a importância que o silêncio tem no desenvolvimento de nossos trabalhos. A Instrução de perguntas e respostas do Ritual de Aprendiz é bastante explícito a este respeito:

P. – Onde fostes recebido [Aprendiz]?
R. – Em uma Loja Justa e Perfeita, onde reinam a União, a Paz e o Silêncio.

Está claro: em uma Loja Justa e Perfeita deve reinar sempre e em todo momento “a União, a Paz e o Silêncio”.

A Instrução Moral do Aprendiz nos recorda igualmente que “é no silêncio, o retiro e a calma dos sentidos, que o sábio se despoja de suas paixões e preconceitos, e que dá passos seguros no caminho da virtude e da verdade”. E a medida em que avançamos, o emblema dos Mestres* nos ensina que nossa força está no silêncio e na esperança.

O silêncio forma parte essencial, como já foi dito, da desnudez e sobriedade de um Regime como o nosso, sempre está presente em todos os graus e classes de nossa Ordem e só é quebrado pelas palavras dos Irmãos quando se desenvolve o Ritual e quando suas intervenções ordenadas são admitidas por quem preside os Trabalhos. O silêncio não pretende, pois, anular a palavra, senão conduzi-la, ordená-la e dar-lhe mais profundidade e solenidade: “Calado, compreendes; Se tens compreendido, falas. No silêncio o intelecto gera a palavra”. (Advertências sobre a índole humana e a boa vida – Antônio, o Grande (Filocalia)).

Para a Ordem Interior, o Código dos CBCS de 1778, em seu Título II que estabelece os deveres dos Irmãos (paragrafo 5), diz: “A lei do silêncio & a discrição mais absoluta são fundamentais na Ordem…”; e em seu Título V, Capítulo I, fazendo referência aos Cavaleiros Capitulares que assistem ao Convento Nacional da Ordem, nos diz que o farão “observando a lei do silêncio”.

Igualmente nas Lojas Simbólicas, os Capítulos de Noviciado ou de Prefeituras terminam sua abertura ordenando um “religioso” ou “respeitoso” silêncio a todos os presentes.

O silêncio é um cooperador necessário em nossos Trabalhos Rituais, sua observância não é nem arbitrária nem subjetiva, concluindo sem nenhuma dúvida de que a música, seja da classe que seja, está proscrita em nossas assembleias, salvo que expressamente se diga o contrário, como é no caso do canto da Salve Regina na Vela de Armas dos Cavaleiros.

PRINCIPIOS DE RECONHECIMENTO ENTRE GRANDES PRIORADOS RETIFICADOS

PRINCIPIOS DE RECONHECIMENTO ENTRE GRANDES PRIORADOS RETIFICADOS

  1. Fidelidade a Santa Religião Cristã, testemunhada pela fé, tal qual se expressa no símbolo de Niceia e afirmada em nossos Rituais: “O Pai, o Filho e o Espírito Santo que são três em um”;
  2. O mais estrito apego aos Princípios e Tradições, tanto maçônicas como cavaleirescas, do Regime Escocês Retificado que se traduzem em aprofundar a fé cristã assim como o estudo da doutrina iniciática ensinada pela Ordem;
  3. O aperfeiçoamento de si mesmo pela prática das virtudes cristãs, a fim de vencer suas paixões, corrigir seus defeitos e progredir na via da realização espiritual;
  4. A prática constante de uma beneficência ativa e esclarecida para todos os homens, sem distinção alguma;
  5. A constituição de um Regime em um corpo único, subdividido em três classes das quais dois são ostensivos: a Classe Maçônica e a Ordem Cavaleiresca, mantendo-se estas sem confusão nem separação alguma, e uma secreta: A Profissão;
  6. A escrupulosa pratica do Regime, integralmente e em sua integridade tal como se define no ponto 5º;
  7. A prática integral dos Rituais autênticos, tanto cavaleirescos quanto maçônicos, do modo como se estabeleceram em 1778, 1782, 1785 e 1809;
  8. Manter relações de cooperação entre nossos Grandes Priorados Retificados, estabelecidas a nível de estabelecimentos cavaleirescos, e de estabelecimentos maçônicos (Diretórios).