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Oração e Caridade nº 22

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Retrato falso atribuído a Martinez de Pasqually com aviso sobreposto

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O Grande Priorado Retificado de Hispânia celebrou a Festividade de São Miguel Arcanjo em 4 de outubro de 2025, reunindo alguns membros de suas Lojas e representantes de Obediências Irmãs da França e da Itália, e de diversas Obediências Amigas de Portugal e da Espanha. Durante os atos foram realizados um Capítulo de Noviciado, o Grande Capítulo anual e a Sessão do Diretório Nacional, renovando os laços de fraternidade e fidelidade aos princípios do Regime Retificado.

O Segredo Maçônico

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A DISCIPLINA INICIÁTICA DO ABANDONO MÍSTICO DA ALMA À DIVINDADE

É sempre pela mesma Lei que se opera a santificação da universalidade dos seres emanados. Só será pelo sacrifício voluntário do livre arbítrio, pelo abandono absoluto da vontade pópria e pela aceitação desse abandono por parte de Deus, que poderá efetuar-se a sua união indissolúvel com aquele que opera a sua santificação.

UM FALSO RETRATO DE MARTINEZ DE PASQUALLY

Por Dominique Clairembault

Retrato falso atribuído a Martinez de Pasqually com aviso sobreposto

Retrato falso atribuído a Martinez de Pasqually com aviso sobreposto

De fato, não existe nenhum retrato do fundador da Ordem dos Elus-Coëns, porém, quando alguém é curioso o suficiente para abrir um navegador da internet e pesquisar o aspecto físico deste personagem, fica impressionado ao descobrir vários retratos. O que há de autêntico neles? De onde vêm? Este é o assunto que propomos abordar aqui.

Foi em 1893 que apareceu pela primeira vez um retrato de Martinès de Pasqually. Ele aparece ao lado de Marc Bédarride em um livro de charges contra a Franco-Maçonaria: O Diabo no Século XIX – ou, os mistérios do espiritismo, a franco-maçonaria luciferina, publicado pelo Dr. Bataille [1]. Na sequência, entre 1894 e 1897, os dois autores publicarão um jornal mensal sob o mesmo título. A legenda sob os retratos afirma: “Os judeus na Franco-Maçonaria, Marc Bédarride, fundador do Rito de Misraim – Martinès de Pasqually, fundador do Rito dos Illuminati Martinistas” .

Gravura com retrato falso de Martinez de Pasqually ao lado de Marc Bédarride

Representação gráfica publicada em 1860 que associa erroneamente esta imagem a Martinez de Pasqually

O retrato de Marc Bédarride está bastante fiel, mas o mesmo não acontece para o de Martinès de Pasqually. Quanto ao resto, o autor não dá nenhuma precisão sobre a origem do retrato que ele apresenta.

Dr. Bataille é um dos muitos pseudônimos utilizados por Gabriel Jogand-Pagès (Léo Taxtil, Miss Diana, Adolphe Ricoux…). Nascido em 21 de março de 1854 em Marselha, e falecido em 31 de março em Scéaux em 1907, este publicitário, mistificador e escritor polêmico é autor de numerosas obras anticlericais, antimaçônicas e de vários romances. Indisciplinado desde a adolescência, seus pais foram obrigados a interná-lo em um reformatório administrado por jesuítas. Deste episódio, ele guardou uma aversão contra a autoridade e a religião. Tendo se tornado jornalista, fundou uma liga anticlerical e publicou obras polêmicas como À bas la Calotte! (Abaixo o solidéu!, de 1879); Les soutanes grotesques(Batinas Grotescas, de 1879); Le fils di jésuite (O Filho do Jesuíta, de 1879); Les jocrisses de sacristie(Piadas da Sacristia, de 1879); La Chasse aux corbeaux (A Caça ao Corvo, de 1879); Prêtres, miracles et reliques (Padres, Milagres e Relíquias, de 1879); Calottes et Calotins (Barretes e Solidéus, de 1880); La Clique noire (A Camarilha Negra, de 1880); Les Bêtises sacrées (As Bobagens Sagradas, de 1880); Les Friponneries religieuses (Os Patifes Religiosos, de 1880); La Marseillaise anticléricale, chant des électeurs (A Marselhesa Anticlerical, Canção dos Eleitores, de 1881); Les Amours secrètes de Pie IX, par un ancien camérier di pape (Os Amores Secretos de Pio IX, por um Ex-Camareiro Papal, de 1881); La Bible amusante pour les grands et les petits enfants (A Bíblia Divertida para Crianças de Todas as Idades, de 1882); Une pape femelle – Roman historique, Aventures et crimes de la Papesse Jeanne (Uma Papisa – Romance Histórico, Aventuras e Crimes da Papisa Joana, 1882); Les Livres secrets des confesseurs dévoilés aux pères de famille (Os Livros Secretos dos Confessores Revelados aos Padres, de 1883); La Prostitution contemporaine (A Prostituição Contemporânea, de 1883); Jeanne d’Arc, victime des prêtes (Joana d’Arc, Vítima dos Sacerdotes, de 1884); La vie de Jésus (A Vida de Jesus, de 1884); Vários desses livros o levaram a processos judiciais, sendo condenado por insulto à religião e ultraje à moral pública. Seus repetidos ataques contra a religião também lhe renderam a excomunhão. Iniciado na franco-maçonaria no início do ano 1881, foi expulso após alguns meses por fraude literária.

Cartazes satíricos de Léo Taxil contra a Maçonaria e o Cristianismo

Três cartazes satíricos de Léo Taxil, símbolo do sensacionalismo anticlerical e antimacônico do século XIX

Após alguns anos, em 1885, Gabriel Jogand-Pagès adotou brutalmente ideias opostas às que haviam sido suas até então. Tornou-se antirrepublicano e empreendeu uma peregrinação a Roma para obter o perdão do Papa Leão XIII. Tendo se tornado um católico radical, adotou então uma posição antimaçônica extremista. A crítica à franco-maçonaria tornou-se logo sua fonte de comércio, com obras como Les Frères trois points (Os Irmãos Três Pontos, de 1886); La Franc-maçonnerie dévoilée (A Franco-maçonaria desvendada, de 1887); Les Assassinats maçonniques (Os Assassinatos Maçônicos, de 1890); ou Le Diable au XIXe siècle, les mystères du spiritisme, la franc-maçonnerie luciférienne (O Diabo no Século XIX, os Mistérios do Espiritismo, a Franco-maçonaria Luciferiana, de 1890); publicações que obtiveram certo sucesso.

Mestre na arte de espalhar falsas informações, Gabriel Jogand-Pagès, também conhecido como “Dr. Bataille” e “Léo Taxil”, esteve na origem de uma farsa acusando a maçonaria de satanismo e conspiração, ideias que logo floresceriam e que alguns logo associariam a todas as formas de esoterismo (magnetismo, rosacrucianismo, etc.). Ele chegou até mesmo a inventar personagens fictícios, a quem acusaria de satanismo, como Diana Vaughan, caso que acabou tomando tal proporção que ele foi obrigado a admitir publicamente ter inventado tudo durante uma conferência dada na Sociedade de Geografia de Paris em 19 de abril de 1897. Desacreditado, ele finalmente deixou Paris e tornou-se um corretor tipográfico. Após estes eventos, ele quase não escreveu mais nada, exceto L’Art de bien acheter, guide de la ménagère, mise en garde contre les fraudes de l”alimentation (A Arte de comprar bem, guia da dona de casa, alerta contra as fraudes da alimentação), obra que publicou em 1904 sob o pseudônimo de Jeanne Savarin. Este breve relato biografico do Dr. Bataille permitirá a cada um avaliar a credibilidade que deve ser dada ao pseudo-retrato de Martinès de Pasqually publicado em 1893.

É provável que o falso retrato de Martinès de Pasqually teria permanecido marginalizado se Arthur Edward Waite (1857-1942) não o tivesse retomado em The Secret Tradition in Free-Masonry (A Tradição Secreta na Franco-Maçonaria)[2], obra publicada em 1911, que conheceu certo sucesso entre os amantes da história do esoterismo. No entanto, já em 1938, Gérard Van Rijnberk o denunciava como falso, ressaltando os erros divulgados pelo livro do Dr. Bataille: “Entre os enganos evidentes está (tomo II, p. 377) um suposto retrato de Martinès!” [3]. Mais tarde, em um artigo publicado em 1965 na revista l’Initiation, Robert Amadou denunciava, por sua vez, este retrato apócrifo.

Retrato falso de Martinez de Pasqually publicado por Edward Waite en 1911

Falso retrato de Martinès de Pasqually extraído da obra de Edward Waite, The Secret Tradition in Free-Masonry, Londres, Rebmann Limited, 1911, pág. 177.

Ele raramente foi publicado após 1911, e só será com o advento da Internet que irá fazê-lo sair das sombras. Ao verem este retrato na internet, muitos internautas não francófonos, incapazes de compreender os comentários que lhe estão associados, pensaram se tratar de um documento autêntico e o reproduziram como tal. Assim, nos últimos dez anos, viu-se esta falsificação amplamente difundida ao ponto de, muitas vezes, servir como “retrato oficial”. O cúmulo da ignorância, foi em 2007, quando Trevor Stewart o colocou na capa de uma edição de o Tratado sobre a Reintegração dos Seres, numa tradução inglesa do original em francês de Martinès de Pasqually editada pela Septentrione Books.

As publicações em língua francesa não ficam atrás na difusão deste falso retrato de Martinès de Pasqually. Assim, em maio de 2013, a revista Le Monde des religions (O Mundo das Religiões) o reproduziu numa ilustração de um artigo de Virginie Larousse intitulado La longue lignée du Martinisme (A longa linhagem do Martinismo) [4].

Enquanto isso, em 2007, Gabriel Atencio, um talentoso pintor e arquiteto colombiano, criou uma pintura a partir da versão publicada em The Secret Tradition in Free-Masonry. Esta pintura a óleo, pouco conhecida e de excelente execução, retrata o personagem na mesma atitude que o popularizado por Waite. Vale ressaltar que Gabriel Atencio é igualmente o autor de uma tela que representa Louis-Claude de Saint-Martin, que se pode considerar sendo um dos mais belos retratos do Filósofo Desconhecido.

Uma silhueta intrigante

Falso retrato de Martinès de Pasqually por Gabriel Atencio

Falso retrato de Martinès de Pasqually por Gabriel Atencio.

No final de 2009, um livreiro parisiense nos enviou um desenho vindo da Suécia que revelava a silhueta de um personagem que sugeria ser Martinès de Pasqually. Logo descobrimos que este novo pseudo-retrato era igualmente apresentado em uma página da enciclopédia online Wikipédia. Parece ter aparecido pela primeira vez em novembro de 2009, época na qual foi publicado por um internauta que assina sob o pseudônimo de “Ohjay”.

Lembremos que este tipo de desenho, inventado por Étienne de Silhouette (1709-1767), representa um perfil traçado a partir da sombra de um personagem. Ele é geralmente enegrecido com nanquim ou recortado em papel colorido. Um detalhe parece mostrar que o desenho que supostamente representa Martinès de Pasqually foi modificado para lhe conferir esta aparência. De fato, o pescoço do personagem é coberto por uma gravata traçada em branco, o que contradiz a técnica utilizada para obter uma silhueta. É possível, no entanto, que este efeito tenha sido obtido por recorte, mas o contorno dos cabelos, igualmente demasiado detalhado, não corresponde ao que geralmente se encontra neste tipo de documento.

Ressaltamos que não há evidências que permitam provar a autenticidade deste retrato fantasma. Teria o autor deste documento procurado imitar imagens já existentes na iconografia Martinista? É provável, pois lembremos das silhuetas de Jean-Baptiste Willermoz, do duque Ferdinando de Brunswick e do conde de Virieu, criados por Grasmeyer durante a Convenção de Wilhemsbad em 1782. [5]

De qualquer forma, o aspecto enigmático de um retrato que esconde as feições de um personagem do qual apresenta somente a sombra seduziu muitos amantes dos mistérios. Alguns historiadores investigaram suas origens sem conseguir estabelecer a verdadeira fonte. É digno de nota que permanece surpreendente que seu proprietário, que não pode ignorar o interesse que apresenta tal documento, não julgou útil apresentar o menor elemento que permita estabelecer suas origens. Esta situação nos permite duvidar que esta silhueta tenha a menor relação com o fundador da Ordem dos Elus-Coëns.

Para concluir este assunto, lembremos que não há, nos dias atuais, nenhum retrato de Martinès de Pasqually. As únicas informações de que dispomos sobre sua aparência física é aquela que consta em um certificado de catolicidade datado de 29 de abril de 1772. Este documento o apresenta como sendo de “estatura média, cabelos negros, que usava peruca”. [6]

Gérard Van Rijnberk deixa claro: “Estas, se forem precisas, são as únicas – e enfatizo a palavra única – particularidades conhecidas sobre a aparência exterior de Martinès”. Nos últimos anos, numerosos documentos martinistas do século XVIII foram descobertos, seja nos acervos públicos, ou em residências particulares. Nenhum deles contém uma gravura que reproduza o tão procurado retrato. No entanto, apostamos que a história nos reserva ainda algumas surpresas, e que tal documento nos revelará, enfim, o retrato deste teósofo desconhecido.

Dominique Clairembault

Notas:

1. BATAILLE, Dr, em colaboração com o Dr Charles Hacks, Le Diable au XIXe siècle : ou, les mystères du spiritisme, la franc-maçonnerie luciférienne, Paris, Delhomme et Briguet, s.d. [1893], pág. 377. Posteriormente, entre 1984 e 1987, os dois autores publicaram um periódico mensal com o mesmo nome.

2. WAITE, Edward, The Secret Tradition in Freemasonry, and an analysis of the inter-relation between the craft and the high grades in respect to their term of research, expressed by the way of symbolism, vol. II, London, Rebmann Limited, 1911, pág. 177.

3. VAN RIJNBERK, Gérard, Un Thaumaturge au XVIIIe siècle, Martinès de
Pasqually, sa vie, son oeuvre, son ordre, t.2, Lyon, Derain-Raclet, 1938, pág. 40.

4. Le Monde des religions, série especial, n° 10, “20 clés pour comprendre
l’ésotérisme” (20 chaves para compreender o esoterismo), junho de 2009, pág. 50.

5. JOLY, Alice, Un mystique lyonnais et les secrets de la franc-maçonnerie, 1730-1824, Macon, Protat frères, 1938, pág. 182, baseado no Ms 5426 da bibliothèque municipale de Lyon.

6. VAN RIJNBERK, Gérard, Un thaumaturge au XVIIIe siècle, Martinès de Pasqually, sa vie, son oeuvre, son ordre, op. cit., pág. 8.